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Poses

Mulheres em poses escalafobéticas usando vestidos que custam quase nosso salário integral. Muito bem maquiadas, muito bem colocadas e algumas muito bem retocadas pelo PhotoShop. Olhares não muito expressivos e bocas algumas vezes semiabertas. Tudo natural.

Só que não. Em uma análise bem fria e unilateral é assim que os editoriais de moda podem ser interpretados; fora da realidade de muitas de nós, que acordam às seis e trinta da manhã para trabalhar todos os dias da semana. Percebendo isso, a artista espanhola Yolanda Domínguez produziu o curta “Poses”.

A ideia é colocar mulheres reais fazendo poses que vemos em editoriais de moda. O engraçado é que as pessoas acham as atrizes malucas. Param para ver se estão passando mal ou se são apenas loucas perdidas no meio da rua. Acompanhe:

As pessoas olham espantadas, algumas param. Acredito que outras poucas chegam a ficar com medo. Compreensível. Eu me espantaria se esbarrasse com pessoas paradas no meio da rua, de braços esticados e boca meioaberta.

Cena de "Poses". O lixeiro cutucando, literalmente, a modelo. Curtiu?

Cena de “Poses”. O lixeiro cutucando, literalmente, a modelo. Curtiu?

Mas é interessante que os editoriais sejam analisada por outro prisma. As modelos que se apresentam quase sem expressão, em posições impraticáveis no dia a dia, estão ali para tentar deixar o produto exposto atraente e bonito. Porque são cabides.

É meio cruel falar assim, mas se formos pensar friamente as mulheres das revistas são meras vendedoras de luxo.  Por isso tanto retoque, maquiagem, luz e belos cenários.  Em minha opinião de leiga e curiosa, o que interessa é resaltar as roupas.

Isso não quer dizer que essas mulheres devem ser ignoradas. Veja o caso da top Gilese Bündchen ou da inesquecível Naomi Cumpbell. Essas fazem parte do time de poucas que conseguem dar personalidade para a roupa que carregam. Acho fantástico, mas raro.

Não adianta arrancar os cabelos se você não é com as mulheres das revistas de moda porque elas não existem de verdade. São meros recortes de uma realidade que precisa ser melhorada para produzir desejo. Elas não têm dias de cão no trabalho, não pegam conduções lotadas, nada disso. Só existem dentro de revistas. Nós – eu, você, sua mãe, sua cunhada, sua irmã -, existimos no mundo, é muito mais divertido. Não há limite para nossas poses. 😎

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Pensando sobre “Os delírios de consumo de Becky Bloom”

Nesse fim de semana acabei revendo a comédia romântica Os Delírios de consumo de Becky Bloom. O filme de 2009 foi inspirado no livro de Sophie Kinsella e conta a história de Rebeca, jornalista consumista que tem por sonho trabalhar em uma prestigiada revista de moda, mas acaba sendo colunista de finanças pessoais em uma revista de economia.

A história é típica do gênero: a mocinha é engraçada, conhece um cara ótimo, tem uma grande decepção com esse homem e, só nos últimos momentos, consegue o final feliz com o amor da sua vida. Até aqui, tudo normal. O que me chama atenção nessa trama é a relação que Rebeca tem com a moda e com os produtos dessa indústria. Repare no trailer:

A personagem é compulsiva. Tem dívidas em todos os cantos e, para tentar se controlar, esconde um cartão de crédito dentro do congelador. Rebeca inventa inúmeras desculpas para fugir dos credores. Por conta de suas compras desenfreadas perde o emprego, a melhor amiga e o namorado. No filme tudo é tratado com muita leveza e humor.

Mas, leitores, será que vocês nunca viram alguém dizer que compra mais quando está triste? Ou, quem sabe, escutou alguém falar que precisa comprar para se sentir importante e atualizado com as tendências? Essas afirmações são comuns, basta que pensemos um pouco para nos lembrar delas na boca de um conhecido. A coisa hoje é tão séria que existem grupos de ajuda para compradores compulsivos.

Falta taxi para tantas compras. (Fonte: reprodução.)

Falta taxi para tantas compras. (Fonte: reprodução.)

A moda vive de novidades. Hoje temos tendências duas vezes ao ano. Antigamente, para uma novidade existir eram necessárias décadas. Vivemos em uma sociedade de aparências e, se bobearmos, deixamos que isso tome conta de nossas vidas. E não pode; a moda deve trabalhar por nós, não devemos trabalhar pela moda.

O gosto pelo fashion serve para nos deixar felizes. Acho legal ter apego por peças favoritas, que contam histórias. Nada de zilhões de roupas com etiqueta, que não dizem nada sobre quem somos. Voltando ao filme, penso que Rebeca aprendeu que comprar roupas não trás felicidade. A felicidade vem dos momentos felizes que passamos com algumas poucas roupas especiais.

E, no fim, ela acha o amor... (Fonte: reprodução.)

E, no fim, ela acha o amor… (Fonte: reprodução.)

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