Adeus, Mary Design

O desfile mais bonito que vi foi da Mary Design. Entraram na passarela modelos vestindo cinza amarradas com linhas e tramas incompreensíveis. O tema era loucura. Ao fundo, músicas de Raul Seixas embalavam as passadas das modelos. No fim, todas pararam. Olharam para nós e de repente, uma forte luz se acendei. Ficamos extasiados. Os da fila A e eu, que assistia no fundo.

Bolei mil significados para o que vi. Na verdade, eu deveria ter pensado, apenas, que era uma coisa linda. Demorei bastante para ter uma peça Mary Design. Mesmo sendo bijus, eram caras. Exclusividade exige algum preço. O primeiro item que comprei foi um anel. Fica grande em mim por isso uso com um anelzinho para não escorregar. É marcante com uma enorme pedra azul.

Mesmo não tendo dinheiro pra comprar, sempre me identifiquei muito com a marca. É que nesse mar de coisas iguais, quando vemos o diferente, dá até uma esperança, um calor no coração. Saber que a Mary vai fechar as portas faz um pouco dessa esperança morrer. A verdade é que, cada vez mais, a unicidade perde valor. Ganha quem produz mais pelo menor preço.

No centro de Belo Horizonte há uma loja que vende bijouterias por 2,99. Qualquer coisa que você quiser dentro daquela loja custa a bagatela de 2,99. Costumava me perguntar como eles conseguem esse preço, com tanto imposto, custos de manutenção do espaço… Dia desses, entendi: navios.

Eles chegam ao Brasil abarrotados de bijus produzidas sabe-se lá como, feitas por pessoas que vivem em sabe-se lá que condições. De tão baratas, e fabricadas com materiais tão ruins, anéis, brincos, pulseiras, acabam causando alergias em muitas pessoas. Algumas vezes, essas coisas são, até, radioativas.

Não digo que não compro. Compro. Com consciência e pensamento crítico. Apenas o necessário para ser usado várias vezes. Nada mais. Aqui em Belo Horizonte, lojas administradas por asiáticos têm se multiplicado como mato no quintal. Principalmente, no centro. E lá se vende de tudo: pulseiras, capas de celulares, bolsas, maquiagens. E não existe procedência ou confiança. Você compra, porque o preço e bom, e torce para não ter nenhuma complicação.

Isto posto, me pergunto: como competir? Como se colocar de maneira forte em um mercado tão feroz? Como continuar criando coisas autorias se as pessoas querem, apenas, mais do mesmo? O mais barato? O mais fácil? Como desenvolver um trabalho que respeite funcionários e fornecedores se não há mais condições de competir de igual para igual com produtos importados?

Hoje, não vim para resolver. Só para confundir mesmo porque, né, também sou dessas. Quero deixar todas as pulguinhas nas mentes de vocês. Acho que a moda está entrando em um ciclo diferente, de formas diferentes de produção mas, enquanto isso não se desenha de verdade, o que podemos fazer? Pensemos…

ce7ca0

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