Nem relógio trabalha de graça

Sexta passada um dos chefes do portal Lilian Pacce publicou em suas redes sociais vaga de emprego para jornalista na cobertura do São Paulo Fashion Week, evento que está batendo à porta de tão perto. Até aí, tudo bem; semana de moda grande precisa de equipe expandida mesmo. Precisa de gente disposta a trabalhar porque, olha, eu já cobri esses eventos e é um negócio extremamente cansativo.

Como eu disse, até aí tudo bem. O problema foi quando esse mesmo chefe disse que pagaria esse felizardo, que vai trabalhar diretamente com a Lilian Pacce, uma das maiores autoridades no assunto, apenas com bom coração e um up grade no currículo. WHAT?? Quem foi que disse que bondade paga conta? Compra comida? Compra roupinhas da moda? Lógico que não!

E, olha, o eleito não precisa, apenas, ser esperto e bonitinho. É interessante que entenda de Final Cut, um programa de edição de vídeos, de Photoshop, o famigerado editor de imagens… É preciso que saiba de moda, curse ou seja formado em jornalismo, bom texto, proatividade, total disponibilidade na semana para trabalhar – e correr! – o dia todo. Váaaaarios requisitos para alguém que não será remunerado.

Já vi isso acontecer em outros veículos. De menor porte. Com pouca relevância. Eu mesma já trabalhei de graça cobrindo moda no comecinho da minha carreira. Não foi uma experiência tão boa porque, minha gente, isso é uma completa falta de respeito pela pessoa e pelo profissional. Por vários motivos que vou enumerar:

– Trabalhar sem receber não é correto por lei, nem relógio trabalha de graça já que é preciso bateria. Trabalhar, sem remuneração, chega a ser quase um trabalho escravo.

– Cobrir semana de moda não é glamouroso e causa bolhas nos pés. Com que dinheiro você vai comprar curativo se não recebeu?

– Essa ideia de que trabalhar em grandes veículos abre portas e a gente precisa se sujeitar para crescer é ilusão. O jornalismo de moda é muito fechado, poucos são os sortudos, muitos ficam frustrados e não vai ser uns dias ralando feito um burro de carga os responsáveis por abrir as portas da esperança para sua vida profissional.

– O jornalismo enquanto profissão está bastante desvalorizado. Você pode perguntar como anda a vida profissional de qualquer jornalista e tenha certeza de que ele vai despejar trezentas mil reclamações em cima de você; assédio moral, longas horas de trabalho, processos impossíveis, precariedade… Ofertas de trabalho de graça só contribuem para a continuidade disso tudo.

Eu poderia falar muitos outros motivos que tornam esse “trabalho” uma furada completa. Mas, passei a manhã toda pensando porque, com o jornalismo de moda, a situação se torna pior e cheguei a um palpite: jornalismo econômico é importante. Jornalismo policial é importante. Jornalismo de moda é acessório feito por gente fútil. É, sim, essa a ideia na cabecinha de muita gente, fiquem atentos.

E, se é o jornalismo de moda uma coisa desimportante, não carece respeito. O profissional pode ser, ainda mais, explorado. O que importa, o mais legal, são os brindes que as marcas dão, as fotos no Instagram, estar na sala de desfiles. Acho tão triste ver a profissão se desmanchar assim… Pessoal do Lilian Pacce, MELHOREM! Não pegou bem para vocês. Estamos de olho, fica a dica!

lilian-pacce

 

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