Arquivo do mês: agosto 2015

O mercado antropofágico da moda

Já vi muitas coisas “pseudo” na minha vida: temos pseudo-namorados, peseudo-intelectuais, pseudo-pais, pseudo-artistas… Mas, confesso ser a primeira vez que dou de cara com algo pseudo-ético. Se você não está sabendo, recentemente a gigante do fast-fashion Zara lançou uma coleção de verão fabricada com algodão orgânico para 2016. Toda em estilo nave, as peças foram confeccionadas com algodão ecologicamente correto por mãos que trabalhavam de forma análoga á escravidão em Bangladesh.

É leitor, é exatamente isso que você leu. Além de ter que pagar R$79,90 (Sim!) em uma blusa basiquinha de algodão, você também adquire uma peça costurada por alguém que trabalha 14 horas por dia ganhando uma mixaria e correndo todos os riscos de saúde que se possa imaginar. Isso, em uma descrição superficial do que são as condições de trabalho nessas confecções obscuras da Ásia. Se quiser saber mais sobre trabalho escravo e moda é só dar um Google…

O negócio é que não podemos considerar justo um produto fabricado com algodão orgânico cuja forma de produção seja o trabalho escravo. Não existe ética pela metade da mesma forma que não existe mulher grávida pela metade. Isso é quase uma piada pronta, uma forma de a indústria da moda, antropofágica como só ela consegue ser, comer a demanda social por produtos sustentáveis e cuspir no mercado produtos ditos como éticos para suprir essa demanda e lucra muito em cima das tais demandas.

Ao menos a H&M pegou melhor o “espírito da coisa”. A loja inventou um projeto bacana com o objetivo de cobrir essa tendência ecologicamente correta que aflora no universo fashion anunciando a primeira Fashion Recycling Week. Uma das iniciativas do movimento é montar vitrines inspiradas em cidades do Reino Unido com roupas doadas, ou que não são aproveitadas pela própria loja. Desse modo, eles incentivam o consumo consciente, provocam reflexão sobre como vemos a roupas hoje e, de quebra, dão uma vida maior para essas peças que ficam obsoletas quando o mais novo grito da moda chega.

OK, as roupas da H&M não usam algodão orgânico, também são produzidas com trabalho escravo para conseguirem chegar rápidas e baratas ao consumidor final, mas eu acredito que sua iniciativa é mais verdadeira que a encabeçada pela Zara que, na minha opinião, nada mais deu que um tiro de marketing para se promover e pagar de “boa moça”. Mas, o tal tiro saiu pela culatra já que o consumidor não é otário.

E o que aprendemos analisando esse caso? Que a indústria da moda e os grandes varejistas são dois bons oportunistas. Eles pegam o espírito do tempo, entendem o que esse espírito quer, traduzem para produtos vendáveis e disparam no mercado para lucrar. A diferença está em como esse oportunismo, que é um dos mecanismos de sobrevivência da indústria, acontece. Vocês acham mais válida e iniciativa da Zara ou preferem a iniciativa da H&M? Eu, como conseguem ler neste texto, já tenho minha favorita…

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